Eles são simples, públicos e quase ninguém usa direito.

E se eu te dissesse que o Bitcoin avisa, com antecedência, quando está barato e quando está caro?

Parece papo de vendedor. Mas não é.

Ao longo dos últimos ciclos, um punhado de indicadores simples acertou, com precisão quase constrangedora, os principais topos e fundos do mercado.

Assim como um médico não chuta diagnóstico quando tem os exames na mão, você não precisa adivinhar nada se souber ler os dados que já estão na sua frente.

O problema é que quase ninguém para pra ler.

A pergunta “é hora de comprar ou vender?” é a mais repetida no mercado cripto.

E a resposta quase sempre vem de um lugar errado: palpite de grupo no Telegram, manchete sensacionalista, frio na barriga.

Existem centenas de indicadores no mercado cripto. Hoje, vou te mostrar 5 que eu uso há anos, por serem simples e precisos em prazos maiores.

Pense neles como um check-up. Nenhum exame sozinho fecha o diagnóstico, mas juntos, eles contam uma história que o preço sozinho nunca vai te contar.

Bora pros exames.

Os 5 sinais vitais do Bitcoin

1. A febre da multidão

Indicador: Fear & Greed Index (Índice de Medo e Ganância)

Ele mede o sentimento do mercado numa escala de 0 a 100. Zero é pânico. Cem é euforia.

Funciona assim: quando seu motorista de Uber começa a falar de Bitcoin, isso é ganância extrema.

Quando aquele amigo que comprou cripto te diz “nunca mais”, isso é medo extremo. O índice só coloca um número naquilo que você já sente nas conversas ao seu redor.

E por que isso importa?

Porque o mercado é movido por gente. E gente é emocional. Quando o medo extremo toma conta (abaixo de 10 no índice) costumamos ver o que o mercado chama de capitulação.

Todo mundo vendendo no desespero. Historicamente, é nesse momento que se formam os fundos.

Na ponta oposta, quando o índice passa de 90, a euforia domina. Todo mundo comprando sem pensar. E é aí que os topos se formam.

Resumo rápido:

  • 🟢 Medo extremo (abaixo de ~20) → tende a ser zona de compra
  • 🔴 Ganância extrema (acima de ~80) → tende a ser zona de venda

2. O elático dos preços

Indicador: RSI (Índice de Força Relativa)

O RSI mede a velocidade e a força de um movimento de preço. Vai de 0 a 100.

A analogia mais honesta: é um elástico. Estica demais pra baixo, volta. Estica demais pra cima, volta. O RSI mede exatamente o quanto o elástico está esticado.

Quando o RSI cai abaixo de 30, especialmente no gráfico semanal, significa que o preço caiu rápido demais. O mercado chama isso de sobrevenda.

É como se o elástico estivesse a ponto de estourar, e quase sempre, ele volta.

Acima de 70, o oposto. Subiu rápido demais. Sobrecompra. O elástico esticou pra cima e a gravidade começa a puxar.

Importante: o RSI funciona melhor em prazos maiores. No gráfico de 5 minutos, é ruído. No semanal, é sinal.

Resumo rápido:

  • 🟢 RSI abaixo de 30 (semanal) → sobrevenda → tende a marcar fundos
  • 🔴 RSI acima de 70 (semanal) → sobrecompra → tende a marcar topos

3. O piso invisível

Indicador: Custo de Mineração do Bitcoin

Esse é um dos mais intuitivos e menos conhecidos.

Minerar Bitcoin tem um custo. Eletricidade, equipamento, manutenção. Existem duas faixas: o custo apenas da energia e o custo total de operação.

Pense na Petrobras. Se o barril de petróleo cai a um preço tão baixo que fica perto do custo de extração, não faz sentido vender. Os produtores seguram. A oferta cai. O preço tende a se recuperar.

Com Bitcoin, a lógica é idêntica. Quando o preço do BTC se aproxima do custo de mineração, os mineradores param de vender.

A pressão vendedora desaparece. E historicamente, esse nível funciona como um piso, um chão invisível que o preço raramente rompe por muito tempo.

Já quando o preço está muito acima do custo, os mineradores estão lucrando alto. E lucro alto gera incentivo pra vender. Pressão vendedora aumenta.

Resumo rápido:

  • 🟢 Preço próximo ao custo de mineração → zona de acumulação
  • 🔴 Preço muito acima do custo → mineradores vendendo → pressão vendedora

4. A panela de pressão

Indicador: Supply em lucro ou prejuízo (on-chain)

Esse exige um segundo de contexto.

Com dados on-chain (dados gravados direto na blockchain) dá pra saber o preço médio que cada carteira pagou pelo seu Bitcoin.

E com isso, dá pra calcular quantos investidores estão no lucro e quantos estão no prejuízo neste exato momento.

Pense em você. Comprou Bitcoin a R$ 300 mil e agora ele vale R$ 500 mil.

A tentação de vender e garantir o lucro é enorme. Agora inverte: comprou a R$ 300 mil e caiu pra R$ 200 mil. Vender no prejuízo é a última coisa que você quer.

Multiplica esse comportamento por milhões de carteiras: é exatamente isso que essa métrica mede.

Quando a maioria está no lucro, a pressão vendedora cresce. Alguém vai realizar. E quando quase todo mundo está no prejuízo, ninguém quer vender. A pressão seca. O fundo se forma.

Resumo rápido:

  • 🟢 Maioria no prejuízo → pressão vendedora fraca → tende a ser fundo
  • 🔴 Maioria no lucro → pressão vendedora forte → tende a ser topo

5. Longe de casa

Indicador: Mayer Multiple

O mais simples dos cinco. Ele compara o preço atual do Bitcoin com a sua média móvel de 200 dias, que é basicamente o preço médio dos últimos ~7 meses.

A analogia: o preço de um apartamento em relação à média do bairro. Se um imóvel custa 3x a média da vizinhança, está caro. Se está abaixo da média, é pechincha.

O Mayer Multiple faz essa conta pro Bitcoin. Quando o múltiplo está perto de 1 (ou abaixo), o preço está historicamente barato. Quando está muito acima (2, 2.5) está esticado e caro.

Não é uma regra absoluta. Mas ao longo de mais de uma década de dados, as zonas de desconto e de excesso são bem claras.

Resumo rápido:

  • 🟢 Mayer Multiple ≤ 1 → preço abaixo da média → desconto histórico
  • 🔴 Mayer Multiple ≥ 2.4 → preço muito acima da média → zona de venda

O diagnóstico é o conjunto

Um último ponto e talvez o mais importante.

Nenhum desses indicadores funciona sozinho. Assim como um médico não te interna só porque sua pressão subiu, você não deve vender tudo só porque o RSI passou de 70.

O check-up só funciona quando você cruza os exames. Se 3 ou 4 desses indicadores estão apontando na mesma direção ao mesmo tempo, a probabilidade de acerto sobe consideravelmente.

Contexto importa. Sempre.

O diagnóstico final

Esses 5 indicadores não são perfeitos. Nenhum é.

Mas eles fazem algo que a maioria dos investidores não consegue fazer sozinha: tirar a emoção da jogada.

Te dão uma base pra decidir com mais clareza e menos impulso.

E no mercado cripto, onde a maioria opera no susto, no FOMO, no palpite de grupo, isso já é uma vantagem absurda.

Você não precisa ser analista. Não precisa viver de gráfico. Precisa só parar de perguntar “o que o mercado vai fazer?” e começar a olhar o que o mercado já está dizendo.

Os dados estão na tela. Sempre estiveram.

O mercado sempre avisa. A diferença entre quem ganha e quem perde não é sorte, é saber ler o que já está escrito.

 

📡 Radar de Mercado

IOF de 3,5% sobre cripto

O governo federal quer criar uma alíquota de 3,5% de IOF sobre a compra de criptoativos. A minuta já existe. Foi obtida pelo Valor Econômico.

A lógica da Receita é simples: se você paga IOF pra comprar dólar, por que não pagaria pra comprar Bitcoin? Eles chamam isso de “neutralidade fiscal.” Na prática, é mais imposto.

Tem um alívio: pessoas físicas com compras de até R$ 10 mil ficariam isentas.

Ainda vai pra consulta pública, então pode mudar. Mas a direção está dada.

O contexto importa aqui. O volume de criptoativos declarados no Brasil saltou de R$ 94 bilhões em 2020 pra R$ 415 bilhões em 2024.

Alta de 438%. O governo viu o bolo crescer e quer a fatia dele.

Como isso afeta você: se for aprovado como está, qualquer compra acima de R$ 10 mil por pessoa física terá 3,5% de custo a mais.

Isso muda o cálculo de entrada em posições maiores e pode empurrar parte do volume pra exchanges descentralizadas.

Fed segura o balanço

O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, disse que o Fed pode levar até um ano pra decidir o que fazer com seu balanço patrimonial, hoje em cerca de US$ 6,6 trilhões.

Traduzindo: o banco central dos EUA acumulou trilhões em títulos desde 2008, acelerou nas compras durante a pandemia e agora está tentando reduzir esse estoque.

O pico foi US$ 9 trilhões em 2022.

A questão é que reduzir rápido demais drena liquidez do sistema. Menos liquidez, menos dinheiro circulando, mais pressão nos mercados de risco, incluindo cripto.

Bessent sinalizou que, com Kevin Warsh no comando do Fed, a redução será cautelosa. Tradução: nada de puxar o tapete da liquidez de uma vez.

Como isso afeta você: se o Fed mantém o balanço elevado por mais tempo, o ambiente de liquidez continua favorável pra ativos de risco. Bitcoin incluso. Não é gatilho de alta imediata, mas tira um risco grande da mesa.

Payroll forte, corte de juros longe

O mercado de trabalho americano não colaborou.

O payroll de janeiro mostrou 130 mil vagas criadas, mais que o dobro das 55 mil esperadas. Desemprego caiu de 4,4% pra 4,3%. E os salários subiram de novo.

Pra quem torcia por um corte de juros em março, a porta se fechou mais um pouco.

O Fed está com a taxa entre 3,5% e 3,75%, e a mensagem é clara: enquanto o emprego estiver forte e os salários pressionando a inflação de serviços, não tem motivo pra cortar.

A maioria dos economistas agora aponta manutenção em março e projeta que a taxa só chegue perto de 3% lá pro fim de 2026.

Um detalhe que pouca gente comenta: o payroll médio de 2025 foi de apenas +15 mil vagas por mês.

Ou seja, o dado de janeiro foi um salto, mas o contexto do ano ainda é de desaceleração. O número veio forte, mas não muda a tendência. Só afasta o alívio de curto prazo.

Como isso afeta você: juros altos nos EUA por mais tempo significam dólar mais forte e menor apetite por risco no mundo. Pra cripto, isso pesa. Não é motivo pra pânico, mas é motivo pra paciência. O ambiente macro ainda não virou a favor.

Essa foi mais uma edição de Block Times.

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Obrigado pela leitura.